sábado, abril 11, 2015

UMA CERTA VELHINHA FOI AO GINECOLOGISTA...
Ao examiná-la, o médico disse:

- Engraçado... a senhora com a cabeça toda branca e… aqui embaixo tudo preto.

Ela explicou:

- Doutor, na cabeça só tive preocupações e aí embaixo só alegrias.

quinta-feira, abril 09, 2015

A NOTÍCIA
Um pai mata um filho de poucos meses espetando-lhe repetidamente uma faca no corpo. Termina o acto filmando a faca no corpo e enviando a foto à mãe que pretende atingir. Fico atingido entre o espanto e torpor por aquilo que de forma tão volúvel aproxima a relação entre o homem e o animalesco. Estamos tão próximos que fere.

O Relvas fez escola e ninguém parece importar-se. O patrão do Passos Coelho licenciado em Direito, fez o mestrado em Ordenamento território e Planeamento Ambiental e o Doutoramento em Ambiente. Tudo áreas afins. Aliás o Direito é afim com tudo. Isso deu-lhe acesso ao ensino Universitário (?) e ao Gabinete de Estudos Social-Democrata. Conferiu-lhe a possibilidade de criar empresas que hoje fazem contratos com o Governo por ajuste directo. E o 1º Ministro dá lições de Moral e de Civismo. Haja deus.

Sampaio da Nóvoa que parece colocar-se destacadamente como candidato do PS a Presidente da República foi presidente do Júri que reprovou José Luís Saldanha Sanches nas provas de agregação à Faculdade de Direito de Lisboa. Faculdade onde o ilustre professor deu provas todos os dias da sua capacidade maior de ser um ilustre mentor. O júri não tomou a sua atitude por razões intelectuais ou cientificas. Mas sim por razões politicas. Saldanha Sanches era um incómodo. Que parece não ter passado no crivo de Sampaio da Nóvoa que agora finalmente descobriu o doce sabor da Liberdade. Mais vale tarde que nunca.   

quarta-feira, abril 08, 2015

DO QUE TENHO INVEJA
Num dos canais de TV (SIC), assisti à tomada de posse do novo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e de seguida ao comentário do de Miguel Sousa Tavares sobre o assunto.
Ao contrário da opinião dos opositores por ofício, MST analisou o assunto baseando-se no que conhece de Medina e na sua integridade, competência e honestidade, o que augura para Lisboa um bom futuro.

Isto deixou-me a pensar. O que nos reservam os habituais partidos políticos ou os movimentos cívicos de cidadãos para Peniche? Será que a esperança também aqui mora?

O que se vislumbra para este nosso concelho num futuro próximo? A pesca e as indústrias subsidiárias disseram aparentemente tudo o que havia para dizer. Como vou explicar à minha filha que chegámos a ter mais de 100 barcos da pesca do cerco e mais de uma dúzia de fábricas de conserva? Como explicar-lhe que Peniche chegou a ser uma terra em que não se dormia, tal a azáfama dos que trabalhavam no e para o mar. Tudo isto desapareceu e quando passamos no centro histórico angustia ver dezenas de estabelecimentos fechados e sem perspectivas de se modificar tal panorama. E se não estão piores as coisas é porque entretanto mais de uma dezena de estabelecimentos de orientais salvam a face deste triste adormecimento.

O Verão traz alguma melhoria com quem nos procura para poder usufruir do nosso mar em termos lúdicos. Mais que isto só Jesus Cristo que ao que nos consta não sabe fazer rendas de bilros.

 

segunda-feira, abril 06, 2015

UMA FELIZ E SANTA PÁSCOA?
Enquanto una se banqueteiam com cabrito ou borrego e doces e mais doces, perpassa pelo mundo uma hecatombe de violência sem limites. Em acto suicida um alemão “kamikaze” leva com ele mais de uma centena de pessoas. No Quénia energúmenos  matam numa Universidade centena e meia de jovens estudantes, só porque são cristãos.

Na Síria, na Ucrânia, na faixa de Gaza, no complexo do Alemão no Rio de Janeiro e em tantos outros locais, só porque sim, morrem milhares de pessoas em actos criminosos perpretados por gente que gente não é.

O que aconteceu com Cristo na Cruz é uma ínfima gota da sanha criminosa que se espalhou neste mundo global. Só que agora podemos filmar e transmitir na hora as crucificações que se estenderam por todo o lado.

E por mais que algumas vozes se façam ouvir pedindo clemência, a surdez como praga instalou-se entre a humanidade. E o que é mais grave hoje é que não há quem ressuscite destes criminosos e hediondos actos.

Que Páscoa? Que Perdão? Sofrer só por existir é mais do que tudo aquilo que se pode merecer.

domingo, abril 05, 2015

SITUAÇÃO DIFÍCIL NOS EUA
Acabo de falar com um amigo que mora em Boston e ele disse-me que faz dois dias que neva, com temperatura de 16 abaixo de zero e com rajadas de vento de 120 km por hora.

Estão totalmente isolados e a sua sogra não faz outra coisa a não ser olhar pela janela da cozinha.

Disse-me que, se esta situação continuar, não vai ter outra alternativa senão deixá-la entrar...

sábado, abril 04, 2015

sexta-feira, abril 03, 2015

A “BURKA”  EM PORTUGAL

Afinal, também por cá se usava a burka, com certeza (?) entre os descendentes dos muçulmanos que cá viveram durante séculos.

              Coisas do nosso passado recente

(Também se usava noutras zonas do país)
Será que esta lei ainda está em vigor?
Uso da burka ou do chador proibido no Algarve
«Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto.»

O biôco (ou biuco) – Algarve
Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:

"Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.

É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho.

É uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."

Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”

Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

 

quinta-feira, abril 02, 2015

Umas festas de Páscoa Felizes e sem preocupações são os votos do vosso bloger.

Aqui vai o meu contributo:
ALIMENTO QUE PROVOCA DANOS IRREPARÁVEIS...
Coma sempre e só alimentos saudáveis


Pergunta do ano

Resposta do século  

   Durante um congresso sobre saúde alimentar, o orador faz a pergunta:

  - Qual o alimento que causa sofrimento extremo, durante anos, depois de ser comido? 

  Depois de um longo silêncio, do meio da plateia, um idoso levanta a mão e responde:  

        - o Bolo de Casamento!!!!


quarta-feira, abril 01, 2015

Humanismo e honestidade são incompatíveis com a política partidária

segunda-feira, março 30, 2015

FOGO-FÁTUO (ignis fatuus em latim)
«É um impressionante fenômeno que costuma ocorrer em cemitérios ou pântanos. De tempos em tempos, surgem misteriosas chamas azuladas, que aparecem por alguns segundos na superfície e logo depois somem sem deixar vestígios. Hoje, os cientistas sabem que esse fogo esquisito está ligado à decomposição dos corpos de seres vivos. Nesse processo, as bactérias que metabolizam a matéria orgânica produzem gases que entram em combustão espontânea em contato com o ar. "Ocorre uma pequena explosão e a chama azulada vem acompanhada de um estrondo que assusta quem está por perto", afirma o químico Luiz Henrique Ferreira, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Com tudo isso, não é de se espantar que o fenômeno alimente lendas de fantasmas, assombrações e almas penadas. No Brasil, ele deu origem a um dos primeiros mitos indígenas de que se tem notícia: o boitatá, a enorme serpente de fogo que mata quem destrói as florestas.
O fogo-fátuo chegou a ser descrito, ainda em 1560, pelo jesuíta português José de Anchieta: "Junto do mar e dos rios, não se vê outra coisa senão o boitatá, o facho cintilante de fogo que rapidamente acomete os índios e mata-os."»
Assim é a realidade portuguesa. Um tremendo, imenso e assustador fogo-fátuo. Já ninguém acredita em algo mais para além do que é imediato. Mesmo que fugaz.
Vão (re)descobrir Herberto Hélder quando a sua postura de Homem já não afectar os invertebrados que tomaram conta deste país. Festejamos o que não deixa rasto. Glorificamos o que não deixa rasto.

Um dia destes uma televisão transmitiu uma reportagem sobre um programa de ocupação dos tempos livres para crianças no Oceanário. Uma menina feliz pelo que tinha visto dizia que tudo aquilo lhe fazia lembrar “A menina e o Mar”. Que lindeza tamanha. A Sophia deixou escapar uma lágrima no seu túmulo no Panteão por tantos anos depois ver a felicidade que conseguiu transmitir às crianças. E o seu sorriso ía na direcção da professora que tão bem soube ser a transmissora do seu legado.
Isto levou-me ao ódio que sinto pelo actual Ministro da Educação que ainda ousa existir. Como se sente um ser politicamente abjecto como este senhor, subsistir com o alarve sorriso que lhe emoldura o rosto tétrico?

Esperemos para bem dos filhos dos nossos filhos que não passe de um fogo fátuo. E que tão depressa a sua carne apodreça o seu rasto não passe de um momento fugaz.

sábado, março 28, 2015


CINQUENTA SOMBRAS DE GREY
em versão alentejana
Quatro alentejanos costumam ir pescar há muitos anos, sempre na mesma época, montando um acampamento para o efeito.

Este ano, a mulher do João bateu o pé e disse que ele não ia. Profundamente desapontado, telefonou aos companheiros e disse-lhes que, desta vez, não podia ir porque a mulher não deixava.

Dois dias depois, os outros chegaram ao local do acampamento e, muito surpreendidos, encontraram lá o João à espera deles e com a sua tenda já armada.

- Atão, João, comé que conseguisti convencer a tua patroa a deixar-te viri?

- Bêm, a minha mulheri tên estado a ler "As Cinquenta Sombras de Grey" e, ontem à nôte, depois de acabar a última página do livro, agarrô-me num braço e alevô-me a vêri o filme. Ósdespois arrastô-me para o quarto. Na cama, havia algemas e cordas!
Mandô-me algemá-la e amarrá-la à cama e opois disse: Agora, faz tudo o que quiseres...

E Ê ... VIM PESCARI !!!

 

sexta-feira, março 27, 2015

EM PENICHE… SÊ PENICHEIRO
O que é ser Penicheiro?

É gostar mais de Peniche que do partido em que militas ou com quem simpatizas

É olhar para a Fortaleza e sentir dentro de ti que: NUNCA MAIS!

É teres um comportamento cívico exemplar na tua terra, nas tuas atitudes como condutor e como peão.

É dares o teu contributo ainda que pequeno para causas transversais a todo o concelho, como por exemplo os Bombeiros.

É estares de coração aberto e de atitude franca para com serviços respeitáveis e nobres como o Hospital.

É seres critico no sentido nobre da palavra em relação à autarquia a que estás ligado e aos autarcas que pediram o teu voto.

É parares um pouco na tua pressa, para ver o mar e a beleza da Barragem de S. Domingos.

É disfrutares com a tua família num domingo de Primavera num piquenique no Pinhal da Câmara.

É sentires que te falta Peniche ao fim de uns dias em que dela te tiveste de afastar.

É visitares os teus antepassados e protegeres o são convívio dos teus descendentes transmitindo-lhes os saberes que ao longo da vida recolheste.

É gostares da tua rua.

terça-feira, março 24, 2015

MORREU HERBERTO HELDER (1930-2015)
O  poeta Herberto Helder morreu aos 84 anos na segunda-feira, em Cascais, onde vivia, avança o jornal Público. Não é ainda conhecida a causa da morte.
Nascido a 23 de novembro de 1930, no Funchal, Herberto Helder é considerado um dos maiores poetas portugueses. Viveu isolado, na sua casa de Cascais, não aparecendo em público e não se deixando fotografar. Chegou mesmo a recusar, em 1994, o Prémio Pessoa.
Sobre Herberto Helder que conheci pela mão e através do espirito brilhante do José Manuel dos Santos recordo sempre da história tenebrosa que comigo se passou em 1977 quando regressei da Guiné-Bissau. Dirigi-me à Bertrand para procurar o que havia do poeta à venda e quando fui ao balcão perguntar atendeu-me um jovem que se dirigiu ao PC para conhecer o stock. Quando o vi escrever o nome “Erberto Elder”, disse-lhe que o meu interesse estava desaparecido, saí e fui à Sá da Costa. Percebi que HH, o maior poeta da segunda metade do século XX estava ainda obscuro para muita gente.
Agora ao saber da sua morte fui procurar elementos para publicar aqui no blog. De muita coisa que encontrei vi um conjunto de textos no RIPLOV.com e considerei que para quem precisa de conhecer quem não conhece, nada melhor do que a seguir transcrevo com a devida vénia. Isto que irão ler (se quiserem dar-se ao trabalho) é uma lição para os escritores provincianos (poetas ou não) que por aí campeiam ufanos e inchados com a sua grandeza.
HH E O PRÉMIO PESSOA Rui Mendes (org)
Não digam a ninguém
António Alçada Batista

«Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou numa delas ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. «Quem é?». A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. «Mas quem é?». Ela disse o meu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho - Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos. Como é que isto vai ser?
Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que ele não ia aceitar.
O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a brincar meio a sério: - Vimos numa díficil missão...
Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:
- Voçês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...
- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...
Ele ainda acrescentou:
- Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.
Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu eu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: - Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais...
A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro:
- Já ninguém faz isto...
- Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim.
Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este «mau pensamento». Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...»
Louvor e simplificação de Herberto Helder
CLARA FERREIRA ALVES
«O dinheiro fazia-me jeito, estou a precisar de um helicóptero, diz o Herberto. Para as viagens ele utiliza - que seria de nós sem um cómico «cliché»? - as asas do poema. E no passeio em frente à casa do poeta, onde eu e o António medimos os passos em volta do poeta, é proibido aterrar. É não. Por razões pessoais e secretas, a pessoa recusa o Prémio Pessoa.
Há uma regra de senso nestas coisas da literatura. Nunca conhecer de perto quem se admira muito. Nos idos de 60, este senhor publicou Os Passos em Volta, que é uma prosa de diamante, clara e dura, eterna. E havia a poesia, ouro garimpado com esforço, separando as palavras da terra que as enlameia, da pedra que as confunde, da corrente que as arrasta. Quase ninguém tem paciência e braço para tal trabalho de homem, a tempo inteiro e mal remunerado. Como diz o António: «Tem um preço ser o Herberto Helder».
Sete mil contos não chegam.
A casa é pobre, de quem cuida mais dos versos do que de si mesmo. O monte de papéis, os livros à beira do abismo, os desenhos na parede, o costume. Os escritores ora são desabridos ora desarrumados. O que não são é desprendidos. O escritor respira a contemporaneidade e aspira à posterioridade, sabendo que para ter a segunda precisa da primeira.
Este senhor desprendeu-se. Os elogios caem-lhe das mãos, a notoriedade explode-lhe na cabeça. Enfim, «não quer dormir sobre o assunto? Este prémio não é um prémio literário, etcétera».
Ele quer falar de tudo menos de prémios. Ou de dinheiro. «Seria vil eu aceitar por causa do dinheiro». Diz as palavras como se estivesse a compô-las. Vil é uma palavra escolhida, serve para a ironia e a seriedade, embora o substantivo seja a especialidade do Herberto.
O António Alçada e eu demos mais uns passos em volta...Não? NÃO.
Partíramos de Seteais buscando um homem, como Diógenes, e tínhamo-lo encontrado. O António arrumou as emoções e, composto na frase: «Sabes que te digo? Ainda gosto mais de ti por causa disto».
Batemos para Sintra, por uma estrada sem mistério, ruminando o mistério das palavras dos que ainda as escrevem.
- in Expresso, 17 de Dezembro de 1994, página 10

Se eu quisesse, enlouquecia
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
in Os Passos em Volta - Estilo, Herberto Hélder
________________
«Herberto Helder nasceu no Funchal, ilha da Madeira, no dia 23 de Novembro de 1930. Frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Começou desde cedo a escrever poesia, colaborando em várias publicações de que se destacam: Graal, Cadernos do Meio-Dia, Pirâmide, Poesia Experimental (1 e 2), Hidra e Nova. É um dos introdutores do movimento surrealista em Portugal nos anos cinquenta, de que mais tarde se viria a afastar. É o poeta mítico da modernidade portuguesa contemporânea, não só pela intensidade particular da sua obra (quer considerada em conjunto, quer na simples leitura de um único dos seus versos) mas também pelo seu estilo de vida discreto e avesso a todas as manifestações da instituição literária. Desde O Amor em Visita, 1958, até mais recentemente, em Do Mundo, 1994, passando por Electronicolírica, 1964, e por Última Ciência, 1988, a sua poesia atravessa várias correntes literárias, manifestando uma escrita muito singular e trabalhada, sendo exemplo de um conseguimento sem falhas, sem debilidades nem concessões. Na ficção, Os Passos em Volta, 1963 (contos), revela o mesmo tipo de elaboração linguística cuidada e encara a problemática da deambulação humana, em demanda ou em dispersão do seu sentido e da sua inteireza. Obras: Poesia – O Amor em Visita (1958), A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), O Bebedor Nocturno (1968), Vocação Animal (1971), Cobra (1977), O Corpo o Luxo a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), Flash (1980), A Cabeça entre as Mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Do Mundo, (1994), Poesia Toda (1º vol. de 1953 a 1966; 2º vol. de 1963 a 1971) (1973), Poesia Toda (1ª ed. em 1981), Ou o Poema Contínuo (2ª. ed., 2004) . Ficção – Os Passos em Volta (1963). »

segunda-feira, março 23, 2015

NEM TODOS SOMOS IGUAIS
Se perguntarmos à generalidade dos portugueses se considera que todos temos iguais direitos e deveres, tenho para mim que a resposta invariavelmente será não.
Eu por exemplo não tenho dúvidas que sou menos respeitado que o “sr. fulano de tal” só porque este cheira a dinheiro por todos os lados e eu cheiro a sobrevivência casual. O “sr. cicrano” merece vénias enquanto que eu levarei um “olá” circunstancial.
Isto para falar de aspectos de somenos importância. Porque se passarmos a aspectos substantivos ainda se tornam mais notórias as desigualdades.

Fotografias minhas não servem para nada em revistas do “jet set” enquanto que outros porque são de apelido “disto & daquilo” merecem ser referenciados.
Um funcionário das finanças de capote alentejano suscita um sorriso amarelo. Se for D. Duarte de Bragança é “chic”.
E podíamos arranjar mais de 1 milhão de possibilidades. Mas não resisto a citar mais uma: - O Licas é um marginal que não é bom saudar. O Ricardo Salgado merece apertos de mão do presidente da Comissão de inquérito e sorrisos benevolentes de quem o aguarda na Assembleia da República.

Não somos iguais em circunstância alguma. Mesmo que estejamos presos existem uns que são mais uns que outros.
Por isso não me insurjo contra a existência de grupos de VIP protegidos. Sempre existiram. O que a constituição diz não passa de uma figura de retórica. Aliás se alguém se preocupasse com a constituição há muito tempo que o actual governo e o presidente da república teriam sido despedidos.

O que está, está muito bem como está. Pelo menos não enganamos ninguém. 

 

sábado, março 21, 2015

ELAS TAMBÉM FAZEM HUMOR

Os homens são como as férias.
Não duram o suficiente.
  

Os homens são como as batatas.
Os novos só descascados e os velhos só a murro.

Os homens são como as bananas.
Quanto mais envelhecem mais moles ficam. 


Os homens são como o tempo.
Não podes fazer nada para mudá-los.

Os homens são como o café.
Os melhores são quentes, fortes e mantém-te acordada durante toda a noite.

Os homens são como o computador.
Difíceis de entender e constantemente sem memória.

Os homens são como a publicidade.
Jamais se pode acreditar numa palavra daquilo que eles dizem.

Os homens são como a conta no banco.
Sem dinheiro não geram interesse.

Os homens são como as pipocas.
Satisfazem, mas só um pouco.

Os homens são como um nevão.
Nunca sabes quando chega, quantos centímetros terá ou quanto tempo durará.

Os homens são como as fotocopiadoras.
Servem para a reprodução.

Os homens são como o estacionamento.
Todos os lugares bons estão ocupados, os outros são deficientes.

quarta-feira, março 18, 2015

REGRESSAR ÀS COLÓNIAS
Estes dias de paragem forçada têm-me permitido arrumar papéis e memórias. Entre outras situações regressei a 1961. Ao ano em que estudando em Lisboa com 17 anos me inscrevi num “Curso de Formação Ultramarina” promovido pela Mocidade Portuguesa e que decorreu no Palácio da Independência (sede nacional da MP na época), no Largo de S. Domingos em Lisboa.
O curso decorreu durante uns meses (julgo que 6) e no final tínhamos de apresentar um trabalho sobre um tema à nossa escolha. Já não me recordo o tema do meu trabalho mas recordo que fiquei classificado em 3º lugar e com isso recebi como prémio uma estadia por 1 mês em S. Tomé e Príncipe.
E em julho lá fui.
Fiquei instalado na Roça de Monte Café. Que era o centro das minhas deambulações na ilha de S. Tomé. Percorri a ilha de uma ponta a outra e fiz uma deslocação num barco de guerra à ilha do Príncipe e ao ilhéu das Rolas tendo neste último ido visitar o marco geodésico colocado por Gago Coutinho e que assinala o local por onde passa a linha do Equador. Estive com um pé no hemisfério Norte e outro no hemisfério sul, o que confere uma sensação de grandiosidade imensa a quem o experimenta.

Recordo longas horas a cavalo pelo interior da ilha a subida a pé ao Pico de S. Tomé com 2024 m de altura.
Recordo as longas horas de conversa com os capatazes de Roças e portugueses ali deslocados em empregos da Administração Pública.

Ali aprendi o que era a escravatura em pleno século XX, com naturais de Cabo Verde e Angola recrutados para trabalhar nas roças e que ficavam endividados até ao resto das suas vidas. A roça pagava-lhes a deslocação de barco para S. Tomé e eles ficavam a pagar com o fruto do seu trabalho. A roça dava-lhes alojamento que eles descontavam no salário. A Roça vendia-lhes as mercearias e eles descontavam nos salários. Quantos mais anos passavam mais se endividavam. Mandavam vir as mulheres e a roça pagava e eles descontavam. As filhas eram para usufruto dos patrões brancos ( e eu assisti a isto).

Aprendi a ler nas entrelinhas e vi mais ali do que durante 6 meses que durou o meu curso de formação ultramarina. O que ali aprendi ajudou a fazer de mim o homem que hoje sou. Devo a S. Tomé e Príncipe o ter percebido o que foi a colonização portuguesa e o que eram “os bons ofícios do colonialismo português”. Mais de uma dúzia de anos depois consolidei o que ali aprendi com o que encontrei na República da Guiné-Bissau onde estive 2 anos como professor cooperante.
Quem melhor explicou o que foi a vida de escravatura em S. Tomé e Príncipe foi Cesária Évora. Aqui deixo em jeito de homenagem aquela terra lindíssima esta canção fabulosa:

segunda-feira, março 16, 2015

PENSAR
Aí está uma coisa que dá trabalho. Que o frenético percorrer dos dias tornou numa atitude acessória. Dizia-se de um patrão: “Pago para trabalhares e não para pensares”.

As notícias multiplicam-se todos os dias. Letras garrafais anunciam nos jornais o tema do dia, tornando obsoleto o do dia anterior. Trata-se da importância de vender jornais e não de levar à criação dum grupo de leitores fiéis que façam das reportagens e das informações fonte de novos saberes e uma consciência critica activa.

No Jornal “i” do passado sábado dia 14, José Gil considerado um dos grandes pensadores europeus dos séculos XX/XXI, afirma que temos de regressar ao “pensar” em oposição a este adormecimento e apatia em que vivemos e torna possíveis todas as tropelias com que nos pretendem atingir.

De propósito nem me referi às TVs como fonte de obscurantismo. O que se passa na generalidade dos canais é verdadeiramente dramático. E nem me refiro aos programas obscenos com que alguns nos presenteiam. Falo de certos programas em que a coberto de um pretenso “serviço público” se promovem sentimentos de impunidade para com os nossos agressores.

Ler e pensar. Ouvir e pensar. Dizer e pensar.
O que nos permite atitudes diferentes das animalescas imagens com que somos brindados diariamente é o sermos capazes de formar um pensamento próprio e baseado nos valores universais dos Direitos Humanos e ambientais.
A repetição acelerada e diária de “homens” e “crianças” degolando e assassinando os seus semelhantes não é mais que a banalização deste horror fazendo com que percamos a raiva inicial por tais atitudes. Banaliza-se o horror para o tornar possível entre nós. E ele já aí está em passos pequeninos mas seguros.

E no entanto surgem nestes tempos Homens com um sentido profundo de humanidade. E são os que se curvam perante eles que o atraiçoam Imagem mil vezes repetidas do amigo beijando o que está a ser traído.

Penso logo Existo. Falo logo Penso.

sábado, março 14, 2015

Epitáfio
Este é o túmulo mais visitado em Utah-USA por causa do texto na lápide! 
Mr. Russell J. Larsen, de Logan, Utah, morreu sem saber que ganharia o túmulo mais visitado. 
Em sua lápide estão escritas cinco regras para o homem ter uma vida feliz...

Tradução:
 1. É importante ter uma mulher que ajude em casa, cozinhe bem, limpe a casa e tenha um trabalho;
 2. É importante ter uma mulher que te faça rir;
 3. É importante ter uma mulher em que possas confiar e não minta;
 4. É importante ter uma mulher que seja boa na cama e que goste de estar contigo;
 5. É muito importante que estas quatro Mulheres nunca se conheçam, caso contrário podes terminar morto como eu.





 

sexta-feira, março 13, 2015

A LISTA
Antigamente o rol. No rol apareciam as pessoas que deviam dinheiro. No tempo da Inquisição os suspeitos de não se devotarem e serem fiéis à Igreja de Roma também faziam parte do rol. Os livros, esses faziam parte do Índex que sobreviveu até aos dias de hoje e do que mais não é que o catálogo dos livros de leitura proibida pela Igreja Católica.

Por associação de ideias quando falamos de lista, rol, índex, estamos a conotar uma carga negativa. Faziam parte da lista no tempo do Estado Novo os comunistas e seus associados. No período negro do nazismo os judeus e homossexuais.

Quem faz parte hoje parte da lista? Os corruptos? Não. Só aqueles que não fazem parte do nosso grupo de interesses. Perguntem ao Deputado europeu Nuno Melo porque se assanhou tanto contra Victor Constâncio e não se lhe ouve uma palavra em relação a Carlos Costa.
Do rol fazem parte os criminosos? Nem todos…nem todos.
Faz parte então quem? Em primeiro lugar os que se opõem ao poder económico-político estabelecido.

Mas hoje com o refinamento, existem vários tipos de listas. A dos opositores e a dos nossos amigos. Os que estão sujeitos às escutas e à observação sistemática das suas contas bancárias e fiscais e os outros. Aqueles em que olhar para os seus interesses é motivo de processo disciplinar.
A um nível mais restrito e “piquenino” também existem listas. As das pessoas que contribuem para a perpectuação no poder de certos autarcas e aqueles a quem está vedado qualquer tipo de “boa-vontade” política ou social.

Hoje são os cinzentões, os “cortiças” quem vai escapando. Qualquer manifestação de personalidade, de “coluna vertebral” põe em risco quem o sustente.  

quarta-feira, março 11, 2015


O FREI TOMAZ
O tal frade do faz o que ele diz, mas não o que faz. Para todos os que pagam e se não pagam ficam se preciso for sem o leite das mamas da mulher que é confiscado, dificilmente se torna compreensível a insensibilidade de um primeiro-ministro perante os seus compromissos sociais e fiscais.

Mais incompreensível se torna que deputados que passam os dias a legislar contra os que mais sofrem, desculpabilizem tal atitude. A arrogância do poder não é apanágio de ninguém em particular. É de todos os que o atingem em geral. Salvo excepções muito excepcionais. Mas que digo eu que não tenha sido já repetido à saciedade?
E tem servido para alguma coisa? A gente abre os televisores e vê estes “malandros” que desviaram por caminhos ínvios milhares de milhões de euros e ou não sabem o que fizeram, ou não se lembram, ou foram outros que não eles, enquanto existem pessoas que por roubarem um pacote de manteiga num supermercado são condenados a penas de prisão e outros vão penhorando os bens que servem para dar de comer aos mais pobres de entre os pobres.

Que merda de país este.