Ao examiná-la, o médico disse:
- Engraçado... a senhora com a
cabeça toda branca e… aqui embaixo tudo preto.
Ela explicou:
- Doutor, na cabeça só tive
preocupações e aí embaixo só alegrias.
"Conversar em Peniche" não é necessariamente conversar sobre Peniche. Também mas não só. Algumas vezes assumirá um papel de raiva. Ou de guerra. Será provocador qb. Comprometido. Não será isento nem de erros nem de verdades (os meus, e as minhas). O resto se verá...
«O dinheiro fazia-me jeito, estou a precisar de um helicóptero, diz o Herberto. Para as viagens ele utiliza - que seria de nós sem um cómico «cliché»? - as asas do poema. E no passeio em frente à casa do poeta, onde eu e o António medimos os passos em volta do poeta, é proibido aterrar. É não. Por razões pessoais e secretas, a pessoa recusa o Prémio Pessoa.
Há uma regra de senso nestas coisas da literatura. Nunca conhecer de perto quem se admira muito. Nos idos de 60, este senhor publicou Os Passos em Volta, que é uma prosa de diamante, clara e dura, eterna. E havia a poesia, ouro garimpado com esforço, separando as palavras da terra que as enlameia, da pedra que as confunde, da corrente que as arrasta. Quase ninguém tem paciência e braço para tal trabalho de homem, a tempo inteiro e mal remunerado. Como diz o António: «Tem um preço ser o Herberto Helder».
Sete mil contos não chegam.
A casa é pobre, de quem cuida mais dos versos do que de si mesmo. O monte de papéis, os livros à beira do abismo, os desenhos na parede, o costume. Os escritores ora são desabridos ora desarrumados. O que não são é desprendidos. O escritor respira a contemporaneidade e aspira à posterioridade, sabendo que para ter a segunda precisa da primeira.
Este senhor desprendeu-se. Os elogios caem-lhe das mãos, a notoriedade explode-lhe na cabeça. Enfim, «não quer dormir sobre o assunto? Este prémio não é um prémio literário, etcétera».
Ele quer falar de tudo menos de prémios. Ou de dinheiro. «Seria vil eu aceitar por causa do dinheiro». Diz as palavras como se estivesse a compô-las. Vil é uma palavra escolhida, serve para a ironia e a seriedade, embora o substantivo seja a especialidade do Herberto.
O António Alçada e eu demos mais uns passos em volta...Não? NÃO.
Partíramos de Seteais buscando um homem, como Diógenes, e tínhamo-lo encontrado. O António arrumou as emoções e, composto na frase: «Sabes que te digo? Ainda gosto mais de ti por causa disto».
Batemos para Sintra, por uma estrada sem mistério, ruminando o mistério das palavras dos que ainda as escrevem.
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- in Expresso, 17 de Dezembro de 1994, página 10
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Se eu quisesse, enlouquecia
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Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?
in Os Passos em Volta - Estilo, Herberto Hélder
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«Herberto Helder nasceu no Funchal, ilha da Madeira, no dia 23 de Novembro de 1930. Frequentou a Faculdade de Letras de Coimbra, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Começou desde cedo a escrever poesia, colaborando em várias publicações de que se destacam: Graal, Cadernos do Meio-Dia, Pirâmide, Poesia Experimental (1 e 2), Hidra e Nova. É um dos introdutores do movimento surrealista em Portugal nos anos cinquenta, de que mais tarde se viria a afastar. É o poeta mítico da modernidade portuguesa contemporânea, não só pela intensidade particular da sua obra (quer considerada em conjunto, quer na simples leitura de um único dos seus versos) mas também pelo seu estilo de vida discreto e avesso a todas as manifestações da instituição literária. Desde O Amor em Visita, 1958, até mais recentemente, em Do Mundo, 1994, passando por Electronicolírica, 1964, e por Última Ciência, 1988, a sua poesia atravessa várias correntes literárias, manifestando uma escrita muito singular e trabalhada, sendo exemplo de um conseguimento sem falhas, sem debilidades nem concessões. Na ficção, Os Passos em Volta, 1963 (contos), revela o mesmo tipo de elaboração linguística cuidada e encara a problemática da deambulação humana, em demanda ou em dispersão do seu sentido e da sua inteireza. Obras: Poesia – O Amor em Visita (1958), A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), O Bebedor Nocturno (1968), Vocação Animal (1971), Cobra (1977), O Corpo o Luxo a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), Flash (1980), A Cabeça entre as Mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Do Mundo, (1994), Poesia Toda (1º vol. de 1953 a 1966; 2º vol. de 1963 a 1971) (1973), Poesia Toda (1ª ed. em 1981), Ou o Poema Contínuo (2ª. ed., 2004) . Ficção – Os Passos em Volta (1963). »
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