terça-feira, janeiro 17, 2017


ESTAMOS AQUI

Nestes dias em que nada parece fazer sentido sabe bem ler um poema. E se escrito por um dos grandes poetas do século XX (David Mourão Ferreira), tão ouvido e tão pouco lido, ainda saberá melhor.

Vale a pena acreditar o que vivemos e no que aprendemos. Vale a pena ter um lar, amar e ser amado. O Tempo não é uma simples metáfora e existirmos confere ao Universo um equilíbrio que nada nem ninguém poderão por em causa. 

E por Vezes

E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos
 
E por vezes os braços que apertamos
 
nunca mais são os mesmos    E por vezes
 

encontramos de nós em poucos meses
 
o que a noite nos fez em muitos anos
 
E por vezes fingimos que lembramos
 
E por vezes lembramos que por vezes
 

ao tomarmos o gosto aos oceanos
 
só o sarro das noites      não dos meses
 
lá no fundo dos copos encontramos
 

E por vezes sorrimos ou choramos
 
E por vezes por vezes ah por vezes
 
num segundo se evolam tantos anos
 

David Mourão-FerreiraFerreira, in 'Matura Idade'
 

 

 

segunda-feira, janeiro 16, 2017


É TEMPO DE AFECTOS

“Quando os miúdos são acarinhados, quando em pequenos têm alguém por trás deles que os apoia, que lhes faz as vontades, que os ensina, tornam-se autoconfiantes.”

Mário Soares

 

Foi um tempo de muito falar de Mário Soares. Das suas virtudes e dos seus defeitos. Das suas vitórias e das suas derrotas. De tudo o que li entre outras retenho a frase que dá mote à crónica de hoje.

Por razões pessoais confesso. Porque sou professor, alguns dizem-me que estou aposentado. Eu só sei que isso é verdade porque não tenho de ir à escola cumprir um horário. Mas sou e sinto-me professor. A minha profissão foi aquilo que de melhor a vida me deu. Fiz da minha profissão um roteiro de andanças em que aprendi o que é ser tolerante e português. Claro que tive “chatices” com alunos. Claro que existiram alunos de quem não gostei. Claro que fui injusto com alguns. Mas por isso e apesar disso sinto-me em paz comigo mesmo. Porque também existiu o reverso da medalha. E gostei do que fiz porque sim. Espalhei amizade e afectos pela generalidade dos meus alunos. E se hoje me é difícil reconhecer muitos deles, também é verdade que alguns dos meus melhores amigos foram alunos meus.

Sempre defendi os afectos como a melhor forma de contribuir para a educação. Tempos houve em que se entendia que só uma educação tipo espartana poderia conduzir a resultados de sucesso. Eu fui desde sempre contra esta corrente pedagógica. Tal como combati energicamente os que entendiam que todos os alunos são iguais e devem ser tratados da mesma forma. Isso é mentira. Todas as crianças são diferentes desde o acto de nascer até ao seu desenvolvimento. E mesmo depois disso.

Entende que uma educação de afectos e de responsabilização é o único caminho para uma pedagogia de sucesso. Só assim será possível ser livre e criar os caninhos de liberdade do Outro. 

sábado, janeiro 14, 2017


TINHA TUDO...

Pois é...

Tinha tudo...

Estava esta manhã sentado ao lado de um sem abrigo, quando ele me disse:
 - A semana passada, ainda tinha tudo!
-Um cozinheiro para as refeições,
-O meu quarto estava limpo,
-As minhas roupas lavadas e passadas,
-Tinha um teto sobre a cabeça,
-TV, Internet, ia à Sala de Desportos, à Piscina, à Biblioteca,
-Podia ainda Estudar...


Perguntei-lhe:
- O que é que se passou ? Droga ? Álcool ? Mulheres ? Jogo ?


 
- Não, não... saí da prisão!

 

sexta-feira, janeiro 13, 2017


VAMOS “CERZIR” IDEIAS

Já passou tempo sobre o “Dia da Rendilheira” e já outra se estará a preparar (ainda mais festivaleiro dado tratar-se de ano de eleições) mas o assunto não parece esgotado.

Um dos elementos que enobrece esses festejos é o Concurso das Rendas de Bilros. Mas passados tantos anos desde o seu início terão de se encontrar fórmulas para o melhorar substantivamente ou, as Grandes Rendilheiras que ainda vão subsistindo, desoladas irão desistindo de participar dando a este concurso um cariz de fios e de nós sem a qualidade e o exercício de estilo de outros tempos.

Sabemos todos como se desenvolve a produção das Rendas de Bilros:

O desenho

Antigamente com os cursos de Lavores e de Formação Feminina o Desenho era uma disciplina em qua algumas escolas regionalmente ou mesmo em alguns países, desenvolviam um ensino artístico que conduzia depois às tapeçarias, aos bordados ou ainda às rendas genericamente falando.

O cartão

Desenvolvido artesanalmente e que servia de suporte com o auxílio de um vegetal e de um químico à passagem decalcada do desenho. A textura do cartão, a cor e capacidade de receber a tinta sem descolorir ou borratar, era uma regra de ouro na sua eleboração.

Picar

Seguia-se a picagem do cartão em pontos pré-definidos do desenho onde os alfinetes seriam colocados para servirem de suporte às linhas com que a renda é tecida.

Rendilhar

O acto de produzir a renda de bilros.

Cerzir

O acto de coser os extremos da renda (sempre que seja esse o caso) para lhe conferir unidade.

 

Este o conjunto de actos sem os quais as rendas de bilros não são possíveis. Uma escola de Rendas de Bilros deve ter como suporte estes elementos.

O concurso de Rendas de Bilros deve tê-los em conta.

Ora a Escola de Rendas de bilros da CMP é um completo logro nesta matéria.

Não produz desenhos inovadores.

Produz cartões que se descoloram passando a tinta para as linhas.

Propõe-se a executar cerziduras com linhas de diferentes diâmetros da linha utilizada na renda conduzindo a remates que mais parecem amarrações de barcos.

Isso não seria grave se não fosse a CMP responsável pela atribuição do selo de qualidade das Rendas de Bilros.

Em relação a estas 2 últimas situações não seria grande o mal se não aceitassem trabalhos que posteriormente fossem postos a concurso, perdendo-se algumas rendas que à partida constituíam autênticas obras de arte.

 

Começar por corrigir o que está menos bem na Escola de Rendas de Bilros da Câmara Municipal de Peniche. Consultar para isso as pessoas entendidas na matéria e nomear alguém de reputação inquestionável nesta área para dirigir e dinamizar a sua actividade.

Depois colocar em questão toda a organização do Dia da Rendilheira tornando-o num espaço das rendilheiras e não de quem as utiliza em proveito próprio.

Partir para a acção. Desde logo reconhecendo que a figura central de toda essa acção é a rendilheira, sem a qual nada existirá para mostrar.

 

 

quinta-feira, janeiro 12, 2017

RENDAS DE BILROS
Nisto eu acredito...
...e nisto também



terça-feira, janeiro 10, 2017


PENSAMENTOS QUE DEFINEM OS DIAS DE HOJE

O caderno “P2” do jornal “PÚBLICO” de domingo último dia 8 de Janeiro, surge com uma série de pensamentos de autores sobre os mais diversos temas que me pare que deve ser minha obrigação partilhar convosco.

Num tempo de pós-verdade em que os valores passam a segundo plano, face a fraseados anónimos ou não, carregados de ódios e atitudes de retaliação e de raiva perante a vida e os desencantos próprios, sabe bem ler e pensar em perspectivas carregadas de ideologia e de esperança. Natália Correia escreveu num poema que “a poesia é para comer”. Eu trago-vos este fantástico manjar de palavras e frases (subtítulos) para que delas nos alimentemos:

“- O que vai mesmo estar em causa é a defesa da democracia liberal”

Marina Costa Lobo

“- A própria ideia de progresso, de fazer sentido pensar em algo como a ‘humanidade’ está em causa”

João Constâncio

“- Os EUA têm uma cultura anti-intelectual”

Richard Zimler

“- O medo do outro é o resultado de políticas concertadas e activas no sentido de o estimular”

Eduardo Paz Ferreira

“- O problema é olhar para o outro como aquela gente que é etnicamente diferente, que me vai tirar o emprego, que vai pôr uma bomba, que ameaça o meu ecossistema”

Isabel Capeloa Gil

“- O terrorismo fascista não está ao virar da esquina. Apesar de tudo, existe uma sólida educação de boa parte da população”

Francisco Bettencourt

“- Foi uma das grandes lições da austeridade: a de que não serviu para nada. Só serviu para as pessoas ficarem muito zangadas. E alguns enriqueceram”

José Maria Vieira Mendes

“- Metade dos americanos nunca leu um jornal, metade nunca votou para um Presidente. Espero que seja a mesma metade”

Gore Vidal

“ (Gore Vidal) Estaria horrorizado com Trump, arruaceiro ignorante e mentiroso patológico”

Jay Parini

“- Washington D.C. é suposto parecer-se com a Roma Antiga (isso no caso de que as ruas da Roma Antiga estivessem repletas de sem-abrigo negros, cães farejadores de bombas…)

Paul Beatty

 

 

domingo, janeiro 08, 2017