quarta-feira, agosto 31, 2011

SERÁ AGORA?
Mais outro político, (desta vez um tal Relvas), anuncia que vão haver profundas mudanças na Administração local, com redefinição do número de freguesias, das competências das Câmaras e das Organizações Regionais, e com a metodologia de funcionamento das Câmaras Municipais que passarão a funcionar com menos vereadores, com a oposição desenvolvida na Assembleia Municipal e sem mais que um partido no Executivo Camarário.
Tudo isto é anunciado com a força de um entendimento “troikoiano” e a solidez de uma maioria na Assembleia da República. Resta dizer que o sr. Relvas se esqueceu de começar por afirmar que tudo isto só será possível com o acordo do Partido Socialista, visto que será necessário aprovar alguns impedimentos constitucionais sem os quais, a maioria destas alterações não serão possíveis.
Se o que este senhor diz fosse sério e com vontade mesmo de avançar, começaria por estudar com o Partido Socialista as reformas a atingir neste âmbito, discuti-las também com os restantes partidos representados na Assembleia da República estas matérias, tentar chegar a um consenso sobre o assunto e depois então, apresentar publicamente as alterações a introduzir e apresentá-las no âmbito de uma Revisão Constitucional.
O que está feito (colocar a carroça à frente dos bois) é mais uma vez chicana política que infelizmente tem sido apanágio deste governo, como o foi dos anteriores. São os “Relvas” deste país que me fazem duvidar desta “gentalha” que nos governa, tão próxima e tão igual aos que nos governavam anteriormente.
Fomos vitimas de mais um GRANDE EMBUSTE, como já o tínhamos sido anteriormente. Tudo está a ser feito contrariamente ao que foi anunciado. Mais uma vez as classes médias e os pobres pagam facturas, e aquilo que era afirmado há um ano atrás como solução para corrigir as despesas excessivas e sumptuárias do Estado serão anunciadas ou não, numa qualquer manhã de nevoeiro.

E POR FAVOR, FAÇAM UM REFERENDO QUE PERMITA A INDEPENDÊNCIA DA MADEIRA, DE FORMA A VERMO-NOS LIVRES DAQUELE “JARDIM” MALCHEIROSO.

terça-feira, agosto 30, 2011

Para ti:
Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

                                            Fernando Pessoa

segunda-feira, agosto 29, 2011

O SPORTING
O Sporting não tem cura. Muda-se de presidente e tudo fica na mesma ou pior ainda. Mudam-se os maestros e os músicos trocam fás por rés e o clube vai de mal a pior. Sócios, adeptos, simpatizantes e adversários todos os anos esperam mais e melhores coisas e tudo vai piorando. Afinal o mal não estava no Bettencourt. Os bilhetes são mais caros e cada vez faltam mais “carcanhóis” para o que é indispensável. Mudam-se os administradores da SAD e o clube de afundanço em afundanço vai de mal a pior. Mudam-se os responsáveis pelo sector médico e os jogadores parecem cada vez mais apáticos e desinteressados.
Ligamos as televisões e todos os “opinadores” sabem mais que os responsáveis. Mas nada melhora. Começam a ouvir-se vozes preparando manifestações contra o actual estado de coisas, como se fosse na rua que se resolvesse o que não se resolve em campo.
É claro que há clubes piores que o nosso. O Farense já foi. O Belenenses está no ir. E por aí fora. E embora haja quem afirme que existe outros piores que nós, o que é certo é que a gente vê os pontos escaparem-se por entre os dedos e começa a ser lamentável que eleição após eleição, ninguém ponha este clube direitinho.
Faltam-nos dirigentes capazes, treinadores e dirigentes fiáveis, equipas técnicas que inspirem confiança, jogadores de méritos reconhecidos. E se calhar adeptos com outra mentalidade e outras exigências em relação a si próprios e aos outros. O nosso Estádio é este. O nosso clube é este. Não vamos mudar.

Nota à margem: Afinal de que é que eu estou a escrever?

domingo, agosto 28, 2011

COMADRES ALENTEJANAS
- Sabe, comadre, ontem à noite estive a ver um programa sobre sexo, mas houve algumas expressões que eu não entendi...
- Então diga lá quais foram as suas dúvidas, pode ser que eu a possa ajudar.
- Olhe, não sei o que é sexo oral !?!
- Isso tá-se mesmo a ver o que é : Sexo de hora a hora...
- Então e sexo anal ?
- Isso é sexo de ano a ano.
- E homossexual ?
- Oh comadre !!! Vossemecê não percebe mesmo nada disto. Tá-se mesmo a ver que é um detergente para lavar os tomates!!!.

sábado, agosto 27, 2011

sexta-feira, agosto 26, 2011

XXXIII
Quem conhece os outros é inteligente,
Quem se conhece é iluminado,
Quem vence os outros é forte
Quem se vence a si próprio tem força de ânimo.

Quem se contenta é rico
Quem se esforça por agir tem vontade.
Quem fica no seu lugar tem longa vida
Quem morre sem desaparecer atinge a imortalidade.

in “Tao Te King”    de   lao tse

quinta-feira, agosto 25, 2011

                                      Amor:
Em todo o homem existe a imensidade e a pequenez... A pequenez é isto, a terra, a casa, a cama fofa, a mulher quente, horários e deveres, o filho com que tu sonhas. E o dinheiro, a posse das coisas. Os homens julgam-se donos delas, mas são prisioneiros: das coisas, do amor, dos hábitos. Só é pobre quem quer ter mais, ser rico... O mundo é todo meu, se o desejo como imensidade, sem termos nem fronteiras. E a mulher é parte disto, um património, um contrato, uma prisão. A estabilidade, a vida regular. Tu queres que eu fique, que eu renuncie à liberdade, para um afundar no teu dia-a-dia...

Mas ser homem é dominar os desejos e ambições, romper as cadeias! Eu não tenho nada, ninguém, pior que tu, mas a mim nada me pode prender: pertenço à imensidade, o céu é meu mesmo através das grades, anda comigo, está-me no sangue. Nem a fome, nem o frio, nem o chão duro, nem a noite, nem a polícia, nem as navalhas mo podem tirar. Livre. O que me sufoca e me destrói é sentir-me retido, possuído...

O amor prende. E que mulher se sujeita ao que eu passo, ao preço que eu pago? Tu irias comigo, e não tardaria que quisesses parar, ter uma janela com cortinas, flores, um berço...

Não eras capaz de resistir. De passar sem isto. Farias tudo para me reter e punir, acabavas por ser pior que um tropeço: uma inimiga! Ou era eu que acabava por te odiar. O homem tem de encontrar sozinho o seu caminho, a liberdade ou a morte... Perdoa-me! Talvez eu volte um dia – serás tu a mesma?

quarta-feira, agosto 24, 2011

...É preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

...É preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora

Mário Cesaryni de Vasconcelos

terça-feira, agosto 23, 2011

“Toda a lei que oprime um discurso está insuficientemente fundamentada.”

Roland Barthes

segunda-feira, agosto 22, 2011

POIS
O respeitoso membro de azevedo e silva
Nunca perpenetrou nas intenções de elisa
Que eram as melhores. Assim tudo ficou
Em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
Vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
E pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.

Alexandre O’ Neill

domingo, agosto 21, 2011

sábado, agosto 20, 2011

DALTÓNICO EU???
Um senhor bem vestido, ao chegar de viagem, apanha um táxi no aeroporto e pede ao taxista para levá-lo para casa.
No caminho, vê uma senhora, também muito bem vestida, a entrar numa boate/discoteca chamada 'Dito e Feito'.
Tendo reconhecido que era a sua mulher, ele pede ao taxista que volte à porta da discoteca. Tira do bolso um maço de notas e diz:
- Aqui estão mil euros. São seus se você tirar de dentro da discoteca aquela mulher vestida de vermelho que acaba de entrar. Mas tire-a de lá dando-lhe uma valente carga porrada, sem problemas, porque aquela desgraçada é minha esposa!
O taxista, que andava dificuldades financeiras, aceita sem pensar duas vezes e entra pela boate a dentro.
Cinco minutos depois ele sai, arrastando uma mulher pelos cabelos, com o rosto a sangrar, toda desgrenhada, e a gritar todas as asneiras que se possam imaginar.
O senhor no táxi vê a cena e percebe, horrorizado, que a mulher está vestida de verde e sai a correr para alertar o taxista do erro.
- Pare! Pare! O senhor enganou-se. Como é que você confundiu vermelho com verde? O senhor é daltónico?
Ao que o taxista responde:
- Daltónico é o caraças! Esta é a minha mulher... Já lá volto para trazer a sua!

sexta-feira, agosto 19, 2011

A Cultura
Vista de certo ângulo, ou pelo prisma de certos sábios nossos, a Cultura faz-me pensar numa sege doirada do tempo do senhor D. João V, puxada por três ou quatro parelhas de burros lazarentos, que não conseguem arrancá-la ao atoleiro em que se encontra.
José Rodrigues Miguéis

quinta-feira, agosto 18, 2011

Nota: Uma arreliadora decisão do meu PC, impossibilitou-me de introduzir o tema de análise que hoje quereria em tempo útil trazer ao vosso conhecimento. Finalmente tive acesso ao Blog e aqui está o que tinha para vos pôr hoje à vossa consideração.

A DIMENSÃO DO HOMEM
Um homem deve morrer orgulhosamente quando já não lhe é possível viver orgulhosamente. A morte que sobrevém em circunstâncias desprezíveis, a morte que não é livre, a morte que ocorre quando não deve ocorrer, é a morte dum cobarde. Não temos o poder de evitar o nosso nascimento; este erro, porém, pois às vezes é um erro, pode ser rectificado se o desejarmos. O homem que se elimina realiza um dos actos mais notáveis. Quase merece viver por tê-lo praticado.

Nietzsche

quarta-feira, agosto 17, 2011

Déjaneur du matin

Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourner
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarrete
Il a fait des rondes
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s’est levé
Il a mis
Son chapeau sur la tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu’il pleuve
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et mois j’ai pris
Ma tête dans ma main
Et j’ai pleré.

Jaques Prévert

terça-feira, agosto 16, 2011

Para a minha filha com um grande beijinho:


LIBERDADE
Nos meus cadernos da escola,
Na minha carteira, nas árvores,
Sobre a areia e sobre a neve,
Escrevo o teu nome.

Em todas as páginas lidas,
Em todas as páginas em branco,
Pedra, sangue, papel ou cinza,
Escrevo o teu nome.

Na selva e no deserto,
Nos ninhos e nas giestas,
Na memória da minha infância,
Escrevo o teu nome.

Em cada raio da aurora,
Sobre o mar e sobre os barcos,
Na montanha enlouquecida,
Escrevo o teu nome.

Na saúde recuperada,
No perigo desaparecido,
Na esperança sem lembranças,
Escrevo o teu nome.

E pelo poder de uma palavra,
A minha vida recomeça,
Eu renasci para reconhecer-te,
Para dizer o teu nome: Liberdade.

Paul Éluard

segunda-feira, agosto 15, 2011

domingo, agosto 14, 2011

UMA QUESTÃO DE DIAGNÓSTICO
Dr. meus testículos estão escuros...
O médico examina o local várias vezes e logo lhe dá o diagnóstico:
- Olhe, tenho que cortar urgentemente o testículo, pois ele está com um princípio de gangrena. Se eu não fizer nada, você pode até morrer!!!
No mesmo dia o homem é operado. Depois de uns 15 dias, o sujeito volta ao médico:
- Doutor, doutor! Esta manhã, notei que o outro testículo também está azulado!
Preocupado, o médico começa a examinar o paciente e lhe dá o mesmo diagnóstico.
No dia seguinte, na sala de cirurgia, o segundo testículo é amputado.
Duas semanas depois, à beira de um ataque de nervos, o paciente regressa ao consultório:
- Doutor, doutor! Veja isto, agora é o meu pênis que está azulado. Não me diga que terei que cortá-lo também!
O doutor faz uma curta revisão, confirma o triste diagnóstico e submete o coitado a uma complicada cirurgia, na qual lhe amputa o pênis e em seu lugar coloca uma mangueirinha plástica transparente.
Três semanas depois o homem regressa, abre a porta do consultório e grita:
- Doutor, que merda está acontecendo? O senhor sabe o que está azul agora? ... A mangueirinha de plástico! Será que tenho um grave problema sanguíneo?
O médico, após tentar acalmá-lo, faz um exame completo e aprofundado.
Horas depois, com o resultado dos testes na mão e uma cara de alívio, anuncia:
- Fique tranqüilo, meu amigo, pois trago boas notícias. Você terá vida longa! Desta vez fiz exames minuciosos e não tenho mais dúvidas:
- SEU JEANS DESBOTA!!!

sábado, agosto 13, 2011

sexta-feira, agosto 12, 2011

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Por razões diversas fui ao meu baú. Nele encontrei um exercício literário que o Padre Bastos me enviou no Natal de 1998, estava eu então no 1º ano do exercício de funções políticas na Câmara Municipal de Peniche. Na altura li pela “rama” aquele escrito. Não "tive tempo" para perceber o que ele encerrava.
Agora ele ganha outra força por eu ter perdido a pressa de viver e ter finalmente assumido a precariedade da minha vida. Partilho convosco agora esse escrito, recomendando-o muito em especial a todos que tiverem que avaliar os outros:

Quando ele não acaba o trabalho, é porque é preguiçoso.
Quando eu não acabo o trabalho, é porque estou muito ocupado.
Quando ele fala de alguém, é maledicência.
Quando eu falo de alguém, é crítica construtiva.
Quando ele mantém o seu ponto de vista, é teimoso.
Quando eu mantenho o meu ponto de vista, sou firme.
Quando ele demora a fazer qualquer coisa, é lento.
Quando eu demoro a fazer qualquer coisa, sou cuidadoso.
Quando ele é amável, é porque tem uma segunda intenção.
Quando eu sou amável, é porque sou virtuoso.
Quando ele vê dois aspectos de uma questão, é um oportunista.
Quando eu vejo dois aspectos, sou largo de espírito.
Quando ele é rápido a fazer qualquer coisa, é descuidado.
Quando eu sou rápido a fazer qualquer coisa, sou hábil.

quinta-feira, agosto 11, 2011

A IDADE DA INOCÊNCIA (texto reformulado)
                                         Para o Jorge Saldanha com um abraço e muita ternura

Vivi sem interrupção até aos 16 anos em Peniche. Que me recorde este viver teve umas breves incursões de férias na Atouguia da Baleia e uma ou outra ida aqui ou ali com o meu pai.
Os meus amigos foram ao longo destes 16 anos o pessoal da minha rua, os da rua “lá de trás” entre os quais destaco o Idinho e o ZéZé, o pessoal que frequentava o Jardim e o Clube, e depois sucessivamente os meus colegas da escola primária, da Admissão, do Ciclo Preparatório e todos os da Escola Industrial e Comercial de Peniche. Aos leitores que parecer que todos são muitos, recordo que aos 9 anos quando entrei para a Escola na fábrica do Alemão (o tal alemão que era avô do Herman José), éramos cerca de 120 alunos e quando saí da Escola Industrial aos 16 anos, não passávamos de 300 alunos.
Nesse tempo Peniche não passava de um bocado de terreno com umas quantas casas, todos os habitantes se conheciam uns aos outros e estava fora de causa entre ao jovens e adolescentes, cruzarmo-nos uns pelos outros sem uma saudação (Óiiiii!) ou sem uma “pedrada”. A distância entres as duas coisas era se pertencíamos à mesma “companhia” ou a “companhias adversárias”, se éramos de Peniche de Baixo e eles de Peniche de Cima. Nunca éramos indiferentes uns aos outros.
Tornávamo-nos adultos gradualmente. Uns mais cedo que outros. Alguns de nós acabavam cedo a “Primária” e cedo começavam a lidar na vida dos seus pais e avós. O Mar tornava-se a sua casa e a Ribeira o seu Encarregado de Educação. Só os víamos aos domingos no futebol e os nossos Óiiiis, tornavam-se lamentos pela perda.
Outros acabavam a Escola Industrial e iam para as Oficinas Gerais de Material Aeronáutico em Alverca, ou para a Casa Hipólito em Torres Vedras, ou para a Sorefame, para a Siderurgia no Seixal. Nesses locais de culto da nossa incipiente indústria nacional, aprendiam a desmamar-se de Peniche e a tornarem-se cidadãos do pequenino mundo português.
Uma pequena minoria continuava a estudar e a sua independência era mais demorada e menos dura. Teriam de passar alguns anos e com a vida militar nasciam então para um novo estatuto mais adulto.
A Inspecção era o reencontro de todos. E aí era o choque. Muitos reencontravam-se pela primeira vez depois da saída da escola primária. Para além de tantos sentimentos que se cruzavam naquele dia, chegava a haver alguma vergonha por alguns de nós se terem tornado adultos tão cedo, enquanto outros permaneciam protegidos do passar dos anos e da dureza da vida.
…Agora passados mais de cinquenta anos sobre isto tudo, é possível encontrarmo-nos sem nos cumprimentarmos. Por onde se perderam aqueles Óiiiiiiiiiis? Em que percurso, em que guerra, em que partilha ficou aquela costela penicheira que nos aproximava uns dos outros?
Porque é que teve de ser assim? Porque não ficou o encantamento que era a gente reconhecer-se no Niassa quando partíamos para uma guerra que não era nossa.
Porque não resta aquela noite de boémia dos bares de Luanda ou de Nampula…
Onde estão aquelas tardes solarengas a comer ostras nas cervejarias do Pidjiguitti?
Que é feito da alegria que era irmos todos em excursão para ver o Peniche jogar em festa contra o Sintrense ou o Olhanense…
Hoje muitos de nós somos indiferentes uns aos outros. O que ganhámos com isso? Tornámo-nos melhores? Não o creio. Só sei que não sei onde ficou a idade da nossa inocência.
Não foi a crise que nos separou. Foi África. Foi fazer da Democracia uma liga de Futebol e quem pertence a um clube terá de ser violento e agressivo com as turbas dos outros clubes. Foi o ser mais ou menos expedito. Quem se atirou aos oportunismos sejam eles de que tipo forem e singrou, não se revê nos amigos com quem brincou e que pretende utilizar nos seus planos a curto e médio prazo. São para usar e deitar fora.
Quanto de nós não se desperdiça em cada amigo que já não reconhecemos? Sou uma imagem pálida do passado perdido num presente, para o qual o futuro começa desesperadamente a faltar.
É nestas memórias que guardo o melhor de mim.

quarta-feira, agosto 10, 2011

A FESTA JÁ ACABOU
Porque não se ouviam os foguetes. Porque Ferrel já rouba o pessoal à Sra da Boa Viagem. Mas não foi Ferrel que mandou abater os barcos de pesca e hoje, a santa que quase não tinha tempo para se coçar para tomar conta de mais de 100 barcos do cerco, agora com 3 ou 4, até tem tempo para ir à cabeleireira. Porque as bandas já não são o que eram. Valha-nos São Tony Carreira e o seu filho Mikaelinho. Já o Santo padroeiro, o Senhor São Pedro Telmo, continua pobrezinho e abandonado a percorrer os caminhos até Peniche de Cima numa Festa que lhe não pertence, mas por onde deixam vestir as roupinhas domingueiras um dia em 365.
Já não há as barracas dos tirinhos, nem as cavacas em cestos de verga com as vendedoras embrulhadas em xailes negros e alumiadas pelas ametolias de azeite.
Onde está o cheiro do polvo assado na brasa? E onde os restaurantes de frango assado onde o pessoal se juntava para uma ceia depois de uma visita ao Juncal?
Onde a Festa dos carrinhos de folha e dos carrosséis com mais uma “voltarela” para a Menina Manuela e mais uma voltinha prá menina Mariazinha. Onde os cobertores vendidos ao preço de fábrica e os sorteios das panelinhas?
A minha Festa acabou há muito. Restam-me estas recordações que me alimentam o ego. Agora vou descendo (ou subindo consoante a perspectiva) a Avenida do Mar em direcção à Ribeira Velha. Sou abalroado por dezenas de pessoas que se adiantam a mim na angústia de arranjarem um bom lugar para o espectáculo que lhes é oferecido gratuitamente por uma cadeia de supermercados com o cantor da moda. São milhares que se acotovelam no afã de conseguirem um bom lugar. Vão longe agora os tempos dos Ranchos Folclóricos e dos cantores de arraial acompanhados a acordeão.
 Subo em Direcção ao Campo da Torre em busca dos últimos “guardanapos” do Manel Barreto que Deus tem (salvo seja), e de novo a multidão numa correria em direcção ao palco de todas as ilusões.
Feita a compra dos “guardanapos” dirijo-me a casa entre um labirinto de carros estacionados de forma aleatória. Entro em casa e sinto que a Festa se afastou de mim, ou eu dela. Vou aguardar o fogo-de-artifício, último sinal que ainda me prende aos dias da Festa da minha infância e juventude.

quinta-feira, agosto 04, 2011

ESTOU DE FÉRIAS
Entrei hoje de férias e até pelo menos 9 de Agosto. Vou parar aqui uns dias. Vou esquecer a Troika, os memorandos, as razões que levam quem nunca fez grande coisa a poder ter finalmente razões para estar sossegadinho. Vou estar a leste de tudo durante uns dias. Mais concretamente até pelo menos dia 9 de Agosto.
Longe da Internet, vou procurar reviver os tempos em que a minha avó criava um galo para abater e comer na Festa. Para logo começar a encher de sêmeas e milho um outro que seria abatido no Natal.
Vou reviver os tempos dos meus carrinhos de lata e dos contorcionistas que faziam ginástica entre dois pauzinhos. Vou saborear farturas que peço sem açúcar e os guardanapos que antigamente eram do Ti Virgílio.
Vou recordar o meu amigo e padrinho que já não pode assistir às procissões da “sua” Festa. Vou ouvir mais uma vez ele explicar a diferença entre a Festa profana e a Festa Religiosa e a sua percepção de que uma não pode existir sem a outra. Vou recordar os tempos em que era “moda” para as classes burguesas cá da terra ( e também para os que os imitavam) saírem de Peniche nestes dias porque era maçador coexistir com tanta folia e tanto “povoréu”.
Claro que todos vós já percebestes, que num tempo em que existem PCs portáteis e Net livre por tudo quanto é sítio, eu só paro estes dias porque estou em período de reflexão. Melhor dizendo de “calanzisse”. É verdade. Mas para que este texto tenha algum fulgor é preferível eu armar-me em fino e dizer que ESTOU DE FÉRIAS.

terça-feira, agosto 02, 2011

ESTÓRIAS
Em Setembro de 1960 eu fui estudar para Lisboa para a Escola Industrial Machado de Castro. Passado algum tempo de eu lá estar a Mocidade Portuguesa abriu no Palácio da Independência um curso de Formação Ultramarina para jovens que frequentavam os estabelecimentos de ensino do Secundário de Lisboa. Inscrevi-me, fui aceite e frequentei esse curso. No final do curso pela classificação que obtive foi-me atribuído um prémio que constava de uma estadia de um mês em S. Tomé e Príncipe. E no Verão de 1961 lá fui eu a caminho de S. Tomé, uma viagem de 18horas num quadrimotor da TAP com escala em Cabo Verde e na Guiné. A paragem em Bissau foi um pouco empolgante pelo número de tropas que enchiam o aeroporto, já que pouco tempo antes se tinha iniciado a guerra em Angola.
Já a chegada a S. Tomé foi pacífica e fiquei deslumbrado com o que via. Eu e um colega meu fomos recebidos pelo Governador e após as boas vindas foi-nos estabelecido como local de estadia a Roça de Monte Café. Foi um mês alucinante o que ali vivi e foi ali (em S. Tomé) que ao perceber as relações de trabalho que as roças tinham estabelecido com os negros de Angola, Cabo Verde e Moçambique, que me tornei anti-colonialista e mais convicto da injustiça de um domínio baseado na cor da pele.
No período em que estive em S. Tomé vi as filhas dos trabalhadores das roças servirem de pasto aos capatazes. Vi gente local ser arredada dos passeios para um grupo de brancos do qual eu fazia parte poder passar sem dificuldades nem embaraços.
Passados 50 anos sobre estes factos vejo angolanos comprarem (?) bancos portugueses. Vejo Angola como um país emergente, como agora se diz, e nós entregues ao peditório internacional e submetidos ao vexame de sermos afastados dos passeios para os Grandes Senhores da Economia, nos quais se incluem Brasil e Angola, poderem passar orgulhosos das suas capacidades e do poder que detêm.

Penso nisto e penso na ironia dos tempos.

segunda-feira, agosto 01, 2011

APRENDER COM O PASSADO
Para quem necessita de atingir objectivos políticos, nomeadamente o de chegar ao poder é importante não ser cego nem surdo ao passado.
Comecemos por perceber porque é importante chegar ao poder e governar. Fundamentalmente é porque se considera que os princípios que norteiam o candidato levam-no a acreditar que o que defende e advoga será o que melhor defende o bem comum. Isto independentemente de por vezes existirem formas distorcidas de pensar o que é melhor para o bem comum.
Hitler acreditava que o que seria melhor para o bem comum, seria o desenvolvimento da raça ariana e da eliminação de tudo ou de todos que a pudessem constranger. O assassino norueguês também pensa o mesmo e por isso fez o que fez.
Isto é, o bem comum pode ter formas de se manifestar no desejo dos que pretendem atingir o poder, dolorosas ou repugnantes. Os aspirantes ao domínio que se manifesta pelo poder, tendem com o tempo a começar a ouvir as suas vozes interiores e a esquecerem ou a tornarem-se autistas perante o que pensam aqueles que deveriam ser a sua finalidade última. De tanto se tornarem actores e espectadores das suas interpretações tendem a considerar que são eles próprios os melhores intérpretes das necessidades dos que dizem defender. O mesmo acontece com os típicos governantes autoritários e cheios de si próprios que por aí pululam.
Se alguma coisa deveriam aprender com o que aconteceu ao 1º Ministro Sócrates é que ninguém vive impunemente se só se alimentar de si próprio e da imagem que tenta projectar. Nem os média lhes poderão servir de suporte. É que as imagens são efémeras. E o público tem tendência a saltitar de mito em mito, ou de ídolo em ídolo com a mesma velocidade com que as abelhas recolhem de flor em flor o néctar de que se alimentam.
Ninguém sobrevive muito tempo ao seu próprio espectáculo.