sexta-feira, agosto 31, 2012

É O SONHO QUE COMANDA A VIDA...
...MESMO QUANDO TUDO PARECE PIORAR.














quarta-feira, agosto 29, 2012

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação


Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência, a convicção, a certeza são além disso, demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, é católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da "Odisseia".
Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam d'essa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.
Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

Fernando Pessoa in “Ideias Políticas”

segunda-feira, agosto 27, 2012

sexta-feira, agosto 24, 2012

CRISE
É global e dá conta de todos. O que a certa altura começou por ser um "toque" de moda, tornou-se visivelmente um espelho da miséria que grassa por todo o lado. As ONGs ainda tentam a distribuição de roupas, mas logo viver em casebres ou debaixo de lanchas à muito abandonadas na praia, conduzem a rasgões que indiciam o penar doloroso em que tanta gente "BOA" se debate:







quinta-feira, agosto 23, 2012

• Lusa - Peniche: Fábrica de conservas abre 100 postos de trabalho até 2015‏


«Torres Vedras, Portugal 22/08/2012 16:53 (LUSA)
Temas: Economia, Negócios e Finanças, Indústria Transformadora, alimentação, Autoridades locais

Peniche, 22 ago (Lusa) - A fábrica de conservas ESIP de Peniche, a maior do país, anunciou hoje que vai criar até 2015 uma centena de postos de trabalho, após a ampliação das suas instalações concretizada através da cedência de um imóvel da Docapesca.Durante a assinatura do acordo entre as duas entidades e a Câmara de Peniche, Ricardo Luzio, diretor da conserveira, afirmou que "a fábrica se compromete a, até 2015, contratar mais 100 trabalhadores e a fazer investimentos", condições impostas em troca da cedência do interposto frigorífico da Docapesca, já desativado e contíguo às suas instalações.

A ESIP (European Seafood Investments Portugal) vai investir 1,3 milhões de euros em obras de adaptação do espaço e de melhoria ambiental, com a ampliação da estação de tratamento de águas residuais e da implementação de sistema de tratamento de odores provocados, reduzindo os impactos negativos provocados, nomeadamente maus cheiros detetados à entrada da cidade.

O acordo prevê que, por ano, sejam investidos 500 mil euros na fábrica, além da renda anual de 15 mil euros pagos à Docapesca.

O responsável explicou que o antigo interposto frigorífico, cedido por 20 anos, "aumenta as condições de armazenamento e de congelação", ao ter capacidade para receber mais duas mil toneladas de pescado, o que permite diversificar as atividades da indústria, garantindo assim uma maior sustentabilidade e competitividade à escala mundial no mercado das indústrias conserveiras.

A diversidade de produtos fabricados tem vindo a aumentar a rentabilidade da indústria, o que se tem traduzido no aumento da faturação e na criação de novos postos de trabalho: passaram de 200 em 2007 para 400 este ano, além dos temporários, que oscilam entre os 100 e os 400. Nesta altura do ano, a fábrica chega a ter 800 trabalhadores.

Com as instalações, a fábrica passará a abastecer-se de menores quantidades de pescado noutros portos do país, reduzindo assim custos de transporte.

Com estes investimentos, Ricardo Luzio disse que a eventual "deslocalização da fábrica para fora de Peniche fica minimizada", tendo em conta que o setor se tem vindo a deparar com a redução das capturas da sardinha e, por isso, com a escassez pontual da matéria-prima para conservas deste pescado, que representam metade do seu volume de negócios.

A ESIP, atualmente detida por capitais tailandeses do maior grupo mundial conserveiro, fechou o ano passado com um volume de negócios de 60 milhões de euros e deverá faturar este ano mais 10 milhões de euros.

Na cerimónia, presidida pelo secretário de Estado do Mar, Manuel Pinto de Abreu, o presidente da câmara, António José Correia (CDU), sublinhou a importância do acordo, ao melhorar a empregabilidade, numa altura em que a taxa de desemprego no concelho duplicou por comparação a 2005.

O interposto foi construído em terrenos do município, cedidos em direto de superfície à Docapesca por um período de 20 anos. Neste sentido, as duas entidades estabeleceram um novo acordo a aceitar a cedência do edifício à ESIP nos próximos 20 anos, a partir de outubro.»

FYC.

quarta-feira, agosto 22, 2012

TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltado
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

terça-feira, agosto 21, 2012

SITUAÇÕES QUE DEFINEM UMA PESSOA
Se for mulher
 Solteira
 Casada
Divorciada
Se for homem


segunda-feira, agosto 20, 2012

Divina Comédia


Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»

Antero de Quental

domingo, agosto 19, 2012

FOTOGRAFIA
Esta fotografia foi enviada pelo administrador de uma Plataforma Petrolífera da Global Marine Drilling, estacionada em St.Johns, Newfoundland.

Eles têm que mudar o rumo dos icebergs, puxando-os com rebocadores, para evitar que choquem com as plataformas.
Neste caso particular o mar estava calmo, a água cristalina e o sol incidia quase directamente sobre o iceberg, o que permitiu a um mergulhador tirar esta fotografia fantástica. O peso estimado deste iceberg é de 300 milhões de toneladas.
Coisas como esta fazem-nos perceber por que uma fotografia vale mais do que mil palavras ...
Não tanto pela imponência, mas principalmente pela sua beleza.

sábado, agosto 18, 2012

PEDIDO DE AMANTE

Júlio está no Hotel com a amante, curtindo o pós-coito, quando ela resolve interromper o silêncio:
- Júlio, por que não cortas essa barba?
- Ah... se dependesse só de mim... Sabes que minha mulher seria capaz de me matar se eu aparecesse sem barba... ela gosta de mim assim !
- Ora, querido - insiste a amante - Faz isso por mim, por favor...
- Não sei não, querida.... sabes, a minha mulher ama-me muito, não tenho coragem de a decepcionar...
- Mas sabes que eu também te amo muito... pensa no caso, por favor...
O tipo continua dizendo que não dá, até que não resiste às súplicas da amante e resolve atender ao pedido.
Depois do trabalho ele passa no barbeiro, em seguida vai a um jantar de negócios e quando chega a casa a esposa já está dormindo.
Assim que ele se deita, sente a mão da esposa afagando o seu rosto lisinho e com a sua voz sonolenta diz:
- Ricardo!!! Seu sacana, ainda estás aqui? Vai-te embora... O barbudo já está a chegar !!!

sexta-feira, agosto 17, 2012

Fim - Mário de Sá Carneiro

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

quinta-feira, agosto 16, 2012

O Provincianismo Português

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: "V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si".
O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergilio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a "Divina Comédia" superior à "Eneida". O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.
É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.
A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.
O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, "A Relíquia", Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.
Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.

Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'

terça-feira, agosto 14, 2012

AINDA O “ACONCHEGO”

Um Blog define-se como um espaço de opinião livre. Do seu autor. Com que os leitores concordarão ou não. Se não concordarem são livres de emitir a sua discordância desde que não ultrapassem os limites do decoro. Assim é que desde 12 de Novembro de 2006 o autor deste Blog tem vindo a exercer a capacidade de intervenção que a si próprio impôs.
Nunca em circunstância alguma o autor deste Blog exerceu a sua capacidade (leia-se possibilidade) de impedir os comentários que a sua escrita pudesse suscitar. Muita gente tem discordado do que diz e escreve. Todos os comentários foram publicados.
Mas exige a ética da construção de um Blog que o seu autor não comente e não responda aos comentários que lhe dirijam, por mais mordazes, violentos ou duros que sejam. É uma regra de ouro. Que tenho cumprido com exigência para mim próprio.
Por mais que pense que o sentido do texto ou o próprio texto esteja a ser desvirtuado. Mas para que eu mereça ter um Blog não devo responder ao que me dizem. Este é um espaço de diálogo. E é no diálogo que o Homem enquanto tal cresce e se ergue por entre todos os que vivem no planeta Terra.
Assim. Publiquei todos os comentários que me dirigiram a todos os meus escritos, mesmo os mais duros, sem que me tivesse sentido ofendido com o que me diziam. Também eu próprio sempre escrevi com o objectivo de fazer crescer as exigências que permitirão encontrar as melhores respostas para o que nos permitirá a todos construir um futuro que valha a pena.
É possível que o autor do Blog numa ou noutra circunstância possa ter sido injusto ou até cruel. Mas foi sempre o seu propósito respeitar a dignidade de todos e de cada um.
Posto isto e porque este assunto se vem arrastando, publico agora com a elegância de quem não teme, uma carta que me foi dirigida pelo CENTRO DE SOLIDARIEDADE E CULTURA, com o anexo que por bem me quiseram ofertar.
Quem tudo ler, ajuizará como lhe aprouver.
~~
LÁ COMO CÁ...
mesmo aqueles que não percebem inglês conseguem perceber a ideia subjacente aos salários que publicamos. E alguns deles são para toda a vida...

Salary of retired US Presidents ...............$180,000 FOR LIFE


Salary of House/Senate ............................$174,000 FOR LIFE This is stupid

Salary of Speaker of the House ...............$223,500 FOR LIFE This is really stupid

Salary of Majority/Minority Leaders ....... $193,400 FOR LIFE Ditto last line

Average Salary of a teacher ................... $40,065

Average Salary of Soldier DEPLOYED IN AFGHANISTAN ....... $38,000

sábado, agosto 11, 2012

Mágicas…

Vale e Azevedo foi jantar a um restaurante de luxo, onde até os talheres eram de ouro.
De repente, Vale e Azevedo vê um cliente a pegar em duas colheres de ouro e a escondê-las no bolso.
Ficou chateado da vida, por não ter tido a ideia primeiro e, para mostrar que ele sempre era o CHEFE de tudo, decidiu que também ia roubar duas colheres.
Vale e Azevedo pensou um pouco e, como exímio enganador, dissimulado e oportunista, perguntou ao empregado:

- Você quer que eu faça uma magia?

- Sim senhor, respondeu o empregado.

- Bem, pega nessas duas colheres de ouro e põe-nas no meu bolso.

O empregado assim fez. Pegou nas colheres e colocou-as no bolso de Vale e Azevedo.

- OK senhor, e agora?

- Agora contas até 3 e, de seguida, vais tirá-las do bolso daquele cliente.

sexta-feira, agosto 10, 2012

ESTADO DE ESPIRITO
Neste Verão de 2012 sinto-me cansado e triste e sem esperança. O acessório é mais importante do que o essencial. O que é meu é o mais importante de tudo. A minha Festa já não existe mais. Os carrinhos de brincar já desapareceram e as cavacas vendidas à luz da ametolia. E o polvo seco assado. E as barraquinhas dos tirinhos. E a expressão tantas vezes repetida do "venha outro" que ecoava no Juncal da Prageira.
Sou pária na minha terra. Já não sei se isto que vou escrevinhando merece a pena. Tenho de fazer uma reflexão séria  sobre o assunto. É claro que há dias como o de hoje e algumas situações que nos fazem renascer a esperança. Fui aos CTTs. Vi um grupo de funcionários cordiais e  voluntariosos. Vi trabalhadores que por sua iniciativa propunham a alguns dos seus clientes alguns productos. Faziam pela vida e pela valorização da empresa em que trabalham. Bem hajam.

terça-feira, agosto 07, 2012

À COMISSÃO DE PROTECTORES DE MENORES DE PENICHE

Os que assistiram há cerca de 12 anos aos exaustivos esforços que foram feitos para a recuperação do Bairro Arco-Íris (ex Peniche III) não é fácil passar por aquela zona sem um sentimento de saudade e de até de dever cumprido. Recordo entre tantos o exemplo maior que foi o da Carmelita Malheiros, que a incúria dos homens e o seu sempre extremo esquecimento para o que de bom se vai fazendo, conduziu ao esquecimento inglório.
Recordo que o princípio que norteou a recuperação do Bairro foi o de o tornar necessário a Peniche como pólo de apoio às suas necessidades.
Assim surgiu para além da recuperação física, a criação da oficina de reparações que viria a desaparecer ingloriamente, a cozinha de petiscos de que nunca mais se ouviu falar, o Jardim Infantil para crianças a necessitarem de um apoio mais específico e o Centro de Acolhimento para crianças e menores em risco.
Este último foi o que mais dificuldades gerou. Primeiro foi necessário lutar contra umas licenciadas em Assistência Social que trabalhavam em Leiria no Centro Distrital e que estavam convencidas que tínhamos que ser aqui em Peniche cordeiros ao serviço de Suas Majestades.
Depois contra o conservadorismo militante que há época se fazia sentir em algumas instituições de Peniche, que faziam da contabilidade o Deus Pai de todas as coisas. Felizmente que na altura em que o Comissariado de Luta contra a Pobreza considerou encerrada a sua acção no Bairro Arco-Íris se encontrou no Centro de Solidariedade e Cultura de Peniche um parceiro que agarrou no Projecto de acolhimento de crianças, e o tornou numa realidade no nosso Concelho de que hoje nos podemos orgulhar.

Mas, nem sempre as coisas correm pelo melhor e no melhor pano cai a nódoa. Hoje (2012-08-07) pelas 10:30 horas parei o carro em frente ao edifício das Juntas de Freguesia e ao olhar para o Bairro, vi duas crianças com cerca de 3 anos a uma das janelas do Centro de acolhimento. Os meninos brincaram e pularam à janela durante uns largos minutos (10/15 min) correndo o risco de caírem da janela para a rua. Entretanto eu que ando sempre de máquina em riste fiz algumas fotos para ilustrar a situação. Até que, a certa altura, uma mulherzinha surge numa outra janela de um outro compartimento e me grita de rua a rua alertando-me “que era proibido fotografar crianças. Passei-me.
E quem me conhece sabe do que sou capaz quando me passo. Saí do carro e fui ao Aconchego interpelar a “criatura” que me tinha chamado a atenção, para o perigo de eu fotografar os meninos. Fui mal-educado como sei ser nas minhas piores alturas. Disse-lhe o meu nome para o caso de querer participar de mim à policia. E disse-lhe da responsabilidade que tinha quem ali trabalha para se alguma coisa de mal acontecesse àquelas crianças. A resposta que ouvi foi a de que tinam que tratar de outras crianças e não tinham tempo para vigiar todas. Esta é uma resposta e peras.
Mas aquelas crianças não foram para ali por a sua família biológica os maltratar ou abandonar? Triste sina a daquelas crianças que foram buscar acolhimento a quem não tem tempo para lhes prestar atenção. Passam de Herodes para Pilatos num triste corrupio. Alguém vai ter que organizar o serviço naquela instituição de forma a que todas as crianças possam ser devidamente vigiadas. E mais não digo que já estou a ficar outra vez irritado. Quem lutou por aquele local ser um refúgio de amor, não pode aceitar o mínimo descuido. Doa a quem doer.

sábado, agosto 04, 2012