A notícia surgiu inesperada. Tinha morrido o João Afra. Para a minha geração era assim que ele era conhecido. Para outros mais novos poderia ser o Escultor João Afra ou o Mestre João Afra. Natural de Peniche depois do casamento radicou-se em Lisboa, cursou a Faculdade de Belas Artes e ali se tornou Professor. Com obra espalhada pelo País tornou-se um nome conhecido das Artes no domínio da Escultura.
Aqui em Peniche e para muitos de nós continuou sempre a ser o João Afra. Esta relação intimista deu-lhe uma dimensão diferente da que muito provavelmente mereceria.
Dele recordo de forma mais simplista um facto e duas histórias.
Um facto, o de ser proprietário de uma das casas mais célebres de Peniche: A “Casa Encarnada”.
Eu era aluno do 3º Ano do Curso de Formação de Serralheiros da Escola Comercial e Industrial de Peniche. Como professor de Tecnologia Mecânica tinha, uma professora. A Engª Maria Beatriz. Isto não devia ser assim. Estávamos em 1960. Noutra época, noutro século. Uma mulher não devia ser Engenheira. E muito menos engenheira electrotécnica. Mas a Maria Beatriz era-o. Passados poucos meses de ela estar cá rebenta outra novidade na pacóvia Peniche desse tempo. A Engª Maria Beatriz ia casar com o João Afra. A confusão que isso deu nas aulas de Tecnologia Mecânica, com todos nós a massacrarmos o juízo à professora querendo ser convidados.
Passados uns anos, poucos, estava eu a lanchar na “Charcutaria Suíça” de boa memória e entra o João Afra com 2 filhos do casamento com a minha ex-professora. Um menino e uma menina tanto quanto me lembro. O miúdo teria para aí uns 6/7 anos. Alguém vai saber o que é que eles queriam e o rapaz, pede um sumo. Ao que o pai lhe diz que teria de comer um iogurte, por qualquer razão que agora não recordo. O puto refilão insiste no sumo. O pai no iogurte. Sumo para cá, iogurte para lá, até que o rapaz se volta para o Afra e lhe diz: “-Olha vai à merda!”. O João olha para nós e olha para o empregado. Olha para o filho com um ar de quem se interroga sobre o que há-de fazer ao filho, e em surdina diz-lhe: “-Olha! Vai tu!”
Contadas as minhas referências sobre o João Afra, nesta hora de adeus ao conterrâneo que já escapou à lei do esquecimento, resta-me endereçar à família e muito particularmente à minha professora, as minhas sentidas condolências.

1 comentário:
José Maria!
Há três dias descobri o seu blogue e fiquei muito surpreendida com o seu contributo à memória de João Afra.
Estou muito agradecida pelas suas palavras. As fotos estão muito boas.
Metade de mim foi com o João, a outra metade é dos meus alunos.
Eu lembro-me muito bem da primeira personagem do teatro de Gil Vicente...
Quando as obras da Casa Encarnada acabarem, terei muito gosto em recebe-lo com muito afecto.
Um grande Abraço,
Maria Beatriz
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